Histórias da Unisc

       

 

LEMBRANÇAS DO CORAL DA FISC

Hardvig Meinhardt

A maioria das pessoas está fechada e antes de experimentar qualquer ato novo já tem preconceitos que não lhe permitem mudar. Por isso, primeiro, tem de haver uma abertura à experiência. Essa foi uma lição que estávamos debatendo nas salas da antiga FISC, na rua Coronel Jost, durante o Curso de Férias, quando li no jornal que iria iniciar um novo coral em Santa Cruz do Sul.

Foi numa tarde de julho de 1983, numa das salas do Pavilhão da Oktoberfest, que eu resolvi fazer um teste para ingressar no Coral da FISC. Chegando lá, a soprano Marga Alvarez, ao piano, fez eu cantar uma música para sondar a minha aptidão para qual naipe do coral. Na hora não lembrei de nenhuma canção, até que lembrei de uma música, que meus pais tinham cantado num coral de Sinimbu: “Luar do Sertão”. Um tanto atrapalhado, tímido, a pianista exigiu que soltasse minha voz. Assim abri a goela, e alguns funcionários, que estavam trabalhando no local, estranharam: alguém cantando com tanto entusiasmo Luar do Sertão, em plena luz do dia, numa tarde de segunda feira, às 16 horas.

Os ensaios aconteciam às quarta-feiras à noite e aos sábados pela manhã, sob a regência da Profª Nedi Weber Fontoura, com incentivo do prof. Ervino Hoelz, Presidente da APESC, e com o apoio na técnica vocal de Marga Alvarez.

A pré-estréia do Coral da FISC, com 24 integrantes, ocorreu no dia 26 de outubo de 1983, no Auditório do Colégio São Luiz, com músicas folclóricas e populares. Em 1984, assumiu o Coral o jovem regente Ronel Alberti da Rosa, estando na presidência do Coral a Profª Juraida Salvatori, incansável na organização do grupo. Depois, foram muitos encontros de Corais. Foram promovidos pela entidade outros eventos, que inclusive participou de encontros da FECORS, classificando-se para a fase final do 10º Festival em 1985. Em todos os lugares em que o Coral se apresentou, eram muitos os elogios. A entidade mantenedora da FISC, a APESC, apoiava o Coral. Assim em solenidades, como abertura de Seminários, recepção de autoridades, formaturas, lá estava um grupo artístico, mostrando a marca FISC.

Em 1987, a empresa CIMASA ajudou a patrocinar o Coral junto com a APESC. Inclusive foi promovida a noite do In-canto, com apresentação  do grupo universitário num show inédito em três partes. Cabe relembrar sempre o apoio do Prof. Elenor Schneider e da Profª Eleanor Dreyer Sant’Ana que sempre foram os apresentadores, e que emolduraram os espetáculos. Em 1989, no 14º Festival Internacional de Coros, no salão de Atos da UFRGS, o Coral da FISC mostrava a qualidade de um trabalho em Santa Cruz do Sul, ao lado de corais como a UNISINOS, USP e corais da Argentina e da Alemanha. Para alguns integrantes, em especial para Elusa, Giselda, Lúcia, Renato, Ipê, Lourdes e Clécio, Nivalda, João, Heitor, Mara, Fátima, Cleusa, Braga, Gisela, o Coral era uma  atividade quase profissional, com uma paixão e determinação contagiante, que empolgava a todos que acompanharam os ensaios no antigo Auditório da FISC, na Coronel Jost.

Por vários anos alguns integrantes permaneceram cantando, outros se afastavam, novos universitários ingressavam num belo trabalho de educação musical e divulgação da UNISC. Por questão de economia, a APESC deixou de patrocinar o Coral e ficou difícil a continuidade. Para muitos uma tristeza, para outros uma indignação, o fato é que o crescimento do projeto universitário exigia um momento de austeridade e alguns projetos foram suspensos. Assim, em 89 o Coral foi desativado.

Foram seis anos que marcaram a minha vida dentro da Universidade e certamente é lembrança significativa para todas as pessoas que admiram a arte do canto coral. Essa atividade proposta pela Profª Nedi ainda continuou, mas de forma diferente. Assim, em 1991, surgiu o grupo vocal Incanto, que reuniu pessoas identificadas com a arte musical e que, por paixão, necessitavam praticar o canto, alguns oriundos do extinto Coral da FISC. Em 1994, surgiu o Coral Municipal de Santa Cruz do Sul, integrado por muitos ex-coralistas do Coral da FISC.

Lembro da homenagem prestada no dia 26.01.95, pelos 50 anos da nossa Gazeta do Sul, em que o Coral Municipal participou de um belo  programa dentro da Catedral São João Batista.

Assim, foi lançada uma proposta de revalorizar esta arte, que era mantida pelos corais de Igrejas, por algumas empresas e que deveria ser reaberta na nossa  UNISC. A regente Nedi Fontoura sempre afirmava que a proposta de um coral universitário não era o fato de reunir um grupo de pessoas pelo prazer de cantar, de agradar com músicas conhecidas pelo público, mas, sobretudo, de insistir em uma educação musical libertadora, num repertório variado que resgatasse a história, através de canções populares e eruditas. Toda arte autêntica é serviço inestimável prestado ao ser humano no que ele tem de mais digno, a sua espiritualidade. O canto coral se constitui na mais pura expressão e síntese da vida comunitária. O coral faz o papel de mais um elo de ligação da comunidade e da região com a Universidade.

A beleza de uma experiência é que ela está sempre aberta, porque enquanto se vive, a experiência permanece, cresce continuamente, passando do conhecido ao desconhecido, e a beleza de tudo é o inacabado. Nada acaba nunca. Esta é uma lição que também estudamos em nossas aulas, por isso ainda tenho esperança que nessa trajetória da UNISC, o canto coral volte a ter o seu espaço.

 

Associação Pró-Ensino em Santa Cruz do Sul - APESC